CLIPPING | USEFASHION ago. 2011

9 agosto 2011 at 0:46 6 comentários

Reportagem sobre DESIGN DE SUPERFÍCIE, publicada na versão impressa do Jornal UseFashion (agosto de 2011), feita a partir de entrevistas com alguns designers — eu inclusive.

Por uma questão de edição, nem tudo o que eu disse na entrevista pôde ser aproveitado na matéria. Assim, publico a seguir, na íntegra, as perguntas que me foram feitas e as devidas respostas.

Por que escolheu trabalhar com design de superfície?
Meu primeiro contato profissional com o design de superfície aconteceu no final dos anos 80, quando tive oportunidade de trabalhar como desenhista de padronagens numa fábrica de material vinílico. Naquela época, sem a menor experiência no ofício, mas com habilidades e conhecimentos adquiridos na Escola de Belas Artes da UFRJ, e também com grande desejo de aprender, acabei descobrindo, na prática, o que era exatamente desenhar estampas e padronagens — e adorei a “descoberta”! Elaborar desenhos que se emendavam continuamente através de módulos e ver o resultado desse trabalho impresso em papéis de parede, revestimentos para estofados, toalhas de mesa, cortinas para box e muitas outras superfícies vinílicas foi não apenas uma grande novidade, mas também uma surpresa gratificante. Muito do que sei hoje aprendi nessa fábrica, num tempo em que os computadores ainda não existiam e tudo tinha de ser feito com lápis, tintas e pincéis. Na verdade, naquela época, eu ainda não tinha consciência do design de superfície como uma das especialidades do design — somente mais tarde compreendi sua abrangência em relação às possibilidades de atuação. Assim, posso dizer que, inicialmente, a escolha por esta profissão (ainda que eu não a identificasse como ela é hoje classificada) surgiu no momento em que constatei como desenhar padronagens me dava prazer, e como eu me sentia realizado vendo o resultado concreto do que eu havia criado. Depois, já consciente do design de superfície como ele é concebido atualmente, com suas diferentes particularidades, percebi que jamais haveria monotonia em termos criativos, uma vez que cada suporte — seja ele plástico, tecido, papel, cerâmica, vidro, metal… — requer diferentes propostas estéticas segundo o projeto e o resultado que se espera obter. Considero esse constante exercício da inventividade em busca de soluções adequadas às necessidades tanto dos clientes quanto do público-alvo uma espécie de desafio que me estimula tanto quanto me agrada.

Este campo ainda é pouco conhecido no Brasil. Por que você acha que isso acontece?
Acredito que essa falta de conhecimento se deve basicamente a dois fatores. O design de superfície não é muito divulgado por aqui, e isso faz com que ele seja pouco compreendido, e menos ainda valorizado. A maioria das pessoas não faz ideia da abrangência desse ofício, apesar de estarem rodeados por uma infinidade de produtos que sofreram intervenção de um designer de superfície. O termo Surface Design foi criado em 1977 nos EUA, com a fundação da Surface Design Association, um grupo de artistas têxteis que passou a adotar oficialmente essa nomenclatura em relação ao material que produziam, restringindo-a somente a trabalhos com tecidos. Nos anos 80, a designer Renata Rubim — retornando de uma temporada de estudos na Rhode Island School of Design, nos EUA — foi a responsável por introduzir no Brasil a expressão, traduzindo-a para Design de Superfície. Essa denominação vem sendo adotada no país desde então — por profissionais do design e acadêmicos —, de modo mais amplo, referindo-se a projetos de design para diferentes superfícies. Somente em 2005 o CNPq reconheceu o design de superfície como uma especialidade do design. Aproveitando a oportunidade, acho conveniente mencionar algumas áreas nas quais um designer de superfície pode atuar, só para que se tenha ideia da abrangência desse ofício. No segmento têxtil — a maior área de aplicação do design de superfície — o trabalho pode ser dividido da seguinte forma: estamparia, tecelagem, jacquard, malharia e tapeçaria. Em papelaria podem ser criadas estampas e texturas para papéis de parede, papéis de presente, papéis para scrapbooking, embalagens, material de escritório, produtos descartáveis (guardanapos, copos, pratos, bandejas, etc.). A área cerâmica compreende criações de padronagens, formatos e texturas para revestimentos de pisos e paredes (lajotas, azulejos, etc.) e também decoração de louças. Existem ainda os materiais sintéticos, como o plástico, a borracha e a fórmica, para os quais também podem ser criadas estampas ou texturas. Mas o campo de atuação de um designer de superfície pode ser ainda mais amplo, principalmente se considerarmos as novas tecnologias e as interfaces virtuais (superfícies digitais). Percebo que se tem falado mais sobre o design de superfície, não apenas pela inclusão de cursos desta especialidade em algumas universidades do país, mas também por conta de eventos legitimadores (como o Design Forum Superfícies, de São Paulo), e ainda através da internet (blogs, sites e redes sociais). A divulgação e expansão dessa atividade profissional aqui no Brasil ainda é pequena, mas me parece crescente — o que não deixa de ser um bom sinal. Quanto mais o design de superfície for conhecido e compreendido, maiores serão as chances de que ele seja valorizado.

Como o design de superfície pode auxiliar as marcas de moda?
De diversas formas. Não apenas no campo da estamparia (propondo novas aplicações, técnicas e processos de estampagem), bem como em tecelagem e malharia, através de novas matérias-primas, resultados visuais e táteis diferenciados em termos de acabamento, relevos, texturas, transparências, etc. Como tem capacidade para atuar sobre os mais variados materiais e suportes, o designer de superfície pode complementar e otimizar de muitas maneiras o trabalho do designer de moda.

No que você se inspira para criar suas estampas? Quais são suas preferências?
Para mim, a inspiração pode vir de qualquer parte: ilustrações, pinturas, texturas, fotografias, filmes, livros, músicas… tudo depende da tendência a ser explorada e do resultado a ser alcançado. Mas admito que, como fotógrafo amador, cada vez mais venho utilizando imagens — principalmente as feitas por mim mesmo, sempre que possível — nos meus projetos. Entretanto, o uso da fotografia não me limita em relação aos efeitos que espero explorar, pois posso aproveitá-las de diferentes maneiras. Assim, as fotos podem ser usadas diretamente (manipuladas no Photoshop) ou servirem como base para vetorização, redesenho, estilização… as possibilidades são praticamente infinitas, sobretudo quando duas ou mais destas técnicas são combinadas.

Como vê o futuro do design de superfície? Como acha que este campo vai se desenvolver?
Num panorama cada vez mais vertiginoso em termos de evolução tecnológica, no qual as freqüentes mudanças dos métodos de produção e dos estilos de vida não param de acontecer, não me arrisco a dar nenhum palpite. Em todo caso, estou certo de que o desenvolvimento e ampliação desse campo do design será tão constante quanto o surgimento de novas tecnologias, de novos materiais, suportes e possibilidades de aplicação.

E a relação com a sustentabilidade? Como o design de superfície está ligado a essa “tendência ecológica” que existe atualmente?
Creio que levando em conta nas propostas e soluções os recursos que as novas tecnologias proporcionam, como, por exemplo, a estamparia digital — que é um processo bem mais “limpo” que os demais métodos de impressão. Por outro lado, contrariamente aos avanços tecnológicos, existem designers e pequenas empresas (como a Galbraith & Paul) que estão retomando antigos métodos e processos de estamparia — como a feita através de carimbos —, oferecendo soluções personalizadas e mais “artesanais” que não requerem o uso de grandes máquinas e equipamentos sofisticados. A utilização de fibras e substratos orgânicos, corantes e pigmentos naturais, reciclagem e reaproveitamento de materiais também me parecem interessantes alternativas de propostas sustentáveis que os designers de superfície podem e devem explorar em seus projetos.

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6 Comentários Add your own

  • 1. Katia Bonfadini  |  9 agosto 2011 às 5:53

    Muito completa a entrevista! Bem legal pra quem trabalha ou estuda na área! Adoro essa sua padronagem que foi publicada!
    Beijão!

    Responder
  • 3. Luciana  |  10 agosto 2011 às 19:35

    Oi, Wagner! Eu assino a USEFASHION e gostei muito dessa matéria e de design de superfície em si. Tanto que meu TCC será focado no design de superfície e como ele se torna um fator de diferencial de uma marca! Admiro seu trabalho e adoro seu blog!

    Responder
    • 4. Wagner Campelo  |  11 agosto 2011 às 9:54

      Obrigado pela visita e comentário, Luciana.
      Boa sorte no seu TCC!
      Abraço.

      Responder
  • 5. Evelise Anicet  |  11 agosto 2011 às 18:03

    Oi, Pessoal,

    Gostaria de complementar as informações que o Wagner coloca. Esse histórico do Design de Superfície está detalhado no livro Design de Superfície, por Evelise Anicet Ruthschilling, Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2008.
    resumindo, a Renata Rubim trouxe o nome dos EUA em 1986. Em 1991 fizemos o I Encontro Nacional de Design de Superfície com acadêmicos da UFRGS e UFSM, onde decidimos usar no Brasil o termo traduzido, com a aplicação ampliada a todos tipos de substratos e não somente o têxtil. Em 1998 inauguramos o Núcleo de Design de Superfície na UFRGS, equipado com software específicos holandeses. O NDS-UFRGS compartilha a responsabilidade com o Polo de Estamparia Têxtil da UFSM na estruturação do campo de conhecimento de DS em nível acadêmico. Em 2005 conseguimos o reconhecimento do CNPq como sendo uma especialidade do design.
    Atenciosamente,
    Evelise Anicet

    Responder

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