MÉTODOS E PROCESSOS DE CRIAÇÃO

21 outubro 2010 at 11:51 10 comentários

Recentemente, comecei a receber e-mails (sobretudo de estudantes) me perguntando sobre metodologias específicas para criação de estampas. Aproveito, então, a oportunidade para dizer o que penso a respeito do assunto.

Não acredito que existam “fórmulas” que sirvam para todos. Nesta questão tudo pode ser muito relativo e depender de uma série de fatores, como por exemplo: projeto, tema, cliente, oportunidade, resultado que se pretende obter, designer…
Particularmente, acho complicado estipular UMA metodologia a ser usada como “regra”, pois além de limitante, ela seguramente não será apropriada a tudo. Cada caso precisa ser avaliado individualmente.
Penso que quanto menos limitado (e limitante) for o processo criativo, mas rico poderá ser o resultado obtido. Além disso, esses processos tendem a ser sempre muito pessoais: o que funciona para um designer pode não servir para outro. O interessante é cada um descobrir as formas que considera mais adequadas não apenas em relação ao trabalho em si, mas também em relação às próprias afinidades pessoais com os tais processos. Tentando exemplificar: se um designer não tem habilidade ou não gosta de usar aquarela, é melhor evitar esta técnica no processo criativo para que os resultados sejam satisfatórios — ou então ele deverá praticar bastante até se sentir suficientemente seguro para tirar partido dela.

Eu costumo usar a fotografia com muita freqüência no meu processo criativo, às vezes apenas como fonte de inspiração, ou redesenhando a imagem, ou ainda manipulando-a diretamente no Photoshop. Também gosto de desenhar à mão-livre e depois vetorizar os desenhos, ou então usá-los diretamente no Photoshop. É possível ainda tirar partido da técnica mista: usando imagens junto com vetores, desenhos feitos à mão com desenhos criados no computador; ou então colagens, pinturas (aquarela, gouache, nanquim, ecoline, acrílica), dobraduras, recortes… Ou seja, as possibilidades são infinitas e cabe ao designer determinar que caminho pretende seguir conforme o resultado que gostaria de obter. Muitas vezes o processo escolhido pode não funcionar, e outro método terá de ser empregado.

Abaixo, seguem imagens de um processo que uso com freqüência, devido às características mais gráficas do meu trabalho. Entretanto, tenho buscado cada vez mais novas possibilidades para diversificar meu “estilo”. Quanto menos preso a processos predeterminados, maiores podem ser as chances de apresentar um trabalho criativo e original.

Estudos feitos com caneta hidrocor sobre traçado a lápis. Estes esboços foram o ponto de partida para a criação de uma estampa que enviei para a revista de tendências Texitura em 2008 (explorando o tema Organic Lines). Achei que desenhar à mão-livre funcionaria bem em termos de linhas orgânicas. Minha ideia era criar a representação de uma folha nervurada que serviria como elemento de repetição. Todos estes estudos iniciais foram descartados.

Novo estudo, desta vez usando caneta hidrocor de ponta mais fina. Gostei mais deste resultado em relação às tentativas anteriores, mas ainda estava achando a folha demasiado simétrica. Se ela fosse mais irregular eu poderia obter a sensação de “movimento” na hora de dispor o mesmo elemento repetido na padronagem.

Mais um estudo, no qual alonguei um pouco a folha, e também desviei a nervura central para um dos lados a fim de que ela ficasse mais assimétrica. Deste modo eu teria mais possibilidades de “jogar” com o formato da folha no momento de organizá-la na composição.

Estudo final. O desenho foi escaneado e depois vetorizado no CorelTrace. Posteriormente, organizei a composição do modo que me pareceu mais interessante, tentando tirar partido da sensação de “movimento” causada pela alternância dos elementos ao longo da padronagem — como pode ser visto abaixo.

Desenho finalizado no CorelDraw, “rapportado” e impresso para definir melhor cores e tamanhos.

Desenho aplicado no encarte do CD na página de abertura da revista Texitura (2009). Enviei o desenho junto com vários outros criados para a mesma tendência, sem ter certeza se seriam aprovados para a publicação. Fiquei contente em saber que a maioria foi não apenas aprovada, mas também estava “ilustrando” algumas páginas da revista — Aliás, nesta minha primeira participação na Texitura, tive duas estampas minhas publicadas na capa.

Detalhes do encarte do CD na revista Texitura. A estampa das folhas também foi usada numa estreita faixa vertical (com as cores alteradas para vermelho e preto) exemplificando como uma estampa relativamente simples pode adquirir resultados diferentes com pequenas modificações de cor e tamanho.

Estampa impressa na revista Texitura, página 18.

Outros links nos quais falei sobre processos criativos aqui no blog:

PROCESSOS DE CRIAÇÃO PARA ESTAMPAS

PROCESSOS DE CRIAÇÃO PARA ESTAMPAS [2]

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MARACATU & Ti-ti-ti ESTAMPARIA ARTESANAL | ESTÊNCIL | 1ª parte

10 Comentários Add your own

  • 1. Guilherme  |  21 outubro 2010 às 12:41

    Lindo trabalho! Parabéns.

    Resposta
  • 3. Katia Bonfadini  |  22 outubro 2010 às 9:05

    Waguito, já Twittei esse post, que achei maravilhoso! Muito legal saber mais sobre o seu processo de criação. Lembrei das minhocas da Tia, rsrsrsrsrs! Acho que é sempre bom “minhocar” à mão livre antes e depois escanear o resultado e importá-lo para um programa vetorial. Eu quero aprender a fazer isso! No Corel, os traços já ficam prontinhos ou vc precisa interferir muito pro resultado ficar legal? Bjs!

    Resposta
    • 4. Wagner Campelo  |  22 outubro 2010 às 22:32

      Obrigado, Bonfinha!
      Sobre o “acabamento” dos desenhos vetorizados… geralmente, é preciso fazer MUITOS ajustes, mas, no caso da folha, não precisei ajustar nada — ou melhor, fiz os ajustes (de suavização dos cantos) no próprio CorelTrace.
      Beijo!

      Resposta
  • 5. DANIEL MARIANO  |  22 outubro 2010 às 21:37

    Olá,
    Quando vi o cartaz na novela, identifiquei na hora seu trabalho.
    Muito parabéns. Fiquei feliz.
    O máximo você postar seus desenhos e estudos. Muito bom.

    Abraços
    Daniel Mariano

    Resposta
    • 6. Wagner Campelo  |  22 outubro 2010 às 22:54

      Obrigado, Daniel! Pelo visto, muita gente conseguiu identificar o autor do cartaz na novela… Legal saber disso!
      Abraço.

      Resposta
  • 7. Adele  |  22 outubro 2010 às 23:12

    Ótimo post, Wagner!
    Muito legal da sua parte dividir com os outros seu processo criativo, algo que é tão dificil de encontrar sobre estamparia.
    Parabéns!

    Resposta
    • 8. Wagner Campelo  |  23 outubro 2010 às 9:42

      Obrigado, Adele!
      O processo que ilustra o post é apenas um dos que costumo utilizar, dependendo do resultado que pretendo obter. Como eu disse, cada caso tem de ser avaliado individualmente, e isso pode fazer com que diversas técnicas e métodos sejam empregados. O mais “difícil” em relação a divulgar alguns processos é que eles precisam ser fotografados… e nem sempre eu guardo os esboços ou tenho tempo de tirar fotos durante o trabalho. Mas agora estou começando a arquivar as etapas que me parecem interessantes, para fotografar depois. Quem sabe não publico outros processos futuramente?
      Abraço.

      Resposta
  • 9. caroline  |  10 novembro 2010 às 2:23

    olá wagner
    gostaria de saber se você faz o rapport no corel mesmo? existe uma ferramenta para isso ou é no olho?!onde eu consigo aprender essa técnica?
    e queria saber se você dá aulas de estamparia?
    obrigada
    att,
    caroline scheidt

    Resposta
    • 10. Wagner Campelo  |  10 novembro 2010 às 14:52

      Oi, Caroline
      Sim, determino o rapport no Corel (ou no Illustrator ou no Photoshop), dependendo do programa no qual estiver finalizando o arquivo. Não conheço nenhuma ferramenta para fazer rapport nestes programas, mas, evidentemente, eles podem ser usados para tanto. No Photoshop existe um filtro chamado Off Set, que, de certo modo, “facilita” a criação do rapport, mas é preciso fazer uma série de ajustes. Eu raríssimamente utilizo esse filtro, prefiro estabelecer visualmente as dimensões que pretendo dar ao rapport, sempre levando em conta o processo através do qual a estampa será impressa.
      Creio que para saber mais a respeito do rapport você teria de fazer algum curso de estamparia (ou design de superfície) que abordasse este ponto fundamental em detalhes.
      Não dou aulas de estamparia (ainda), mas talvez no ano que vem eu considere esta possibilidade.
      Espero ter ajudado de algum modo.
      Abraço.

      Resposta

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